sábado, 25 de julho de 2015

O ANDARILHO


Quando Napoleão varreu a Europa,
eu não fui bonapartista.
Fugi de navio,
naufraguei no helesponto
e aportei em África.
O rei crioulo mandou me prender
porque meti os olhos na princesa Roxana,
noiva do chefe U Ki Lê Lê Crispim.
Imaginando que eu morreria de banzo em quinze dias,
me deixaram preso por um ano.
Depois me soltaram no deserto
numa rota de beduínos.
Cheguei à Síria
sem dinheiro nenhum
onde fui escravo de um ferreiro.
Andei todo o mundo ora a pé
ora no lombo de um camelo
pelos rios
pelos desertos
e pelas covas da terra
Comi gafanhoto
e mel silvestre.
Por fim, cheguei a um povoado judeu
a tempo do meu próprio nascimento.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O POETA QUE NÃO MORREU AOS SESSENTA

E li os últimos versos de um poeta velho... Eram-me assim, como que as primeiras e as mais tenras confidências: o menino que não foi, o menino que foi. Sempre o menino. Só o menino. Brincando... Como que querendo dizer "nunca descobri o mundo, nunca entendi o mundo."
27 de maio

HOJE MORREU UM TIOZINHO CACHACEIRO

Hoje morreu um tiozinho cachaceiro. Seu último ato lúcido foi há vinte anos. Era uma manhã de outono, como esta. Acordou cedo, fez a barba, abotoou a camisa, escovou os dentes. Olhou-se no espelho do banheiro, e como sempre, admirado, olhou-se também no espelho do quarto. Espiou o relógio... Saiu sem tomar café. E, sem motivo algum, saiu da sua própria vida e nunca mais voltou.

23 de maio

ERA UMA VEZ UM TRAVESSO

Era uma vez um travesso, travesso só o final da palavra: avesso. Então, o conto começaria assim, se tivesse começado. Era uma vez um avesso, no mínimo estranho, canhoto de pé e de mão. Nunca respondeu à altura, respondia à profundidade. Porque tudo tinha que ser o contrário. Todo mundo batia o pé. Mas ele teimava. E incomodava... A cada resposta estranha, vinha mais desprezo, até que sua fama se espalhou pelo lugar. No dia do seu apedrejamento o céu estava azul às três da tarde. A cidade se ajuntou. Avesso não temeu. O primeiro inquisidor já segurava a sua pedra, "vou acertar-te o olho", avesso respondeu qualquer coisa que não fazia o menor sentido àquele ímpio tribunal. A pedra ia, mas de repente, ao invéz, rebentou tanto olho direito quanto o nariz do tirano. O segundo se arriscou. Ainda mais pretencioso. "Vou acertar-te a cabeça." Avesso respondeu qualquer coisa que não fazia o menor sentido àquele ímpio tribunal. A pedra ia, mas de repente, ao invéz, fendeu o crânio do algoz.

08 de julho de 2013

SERAFIM

Serafim saiu torto. Serafim, que nunca foi serafim. Um dia o céu ficou mais alto, no meio do centro da cidade. O sol rachava sobre a cabeça de Serafim. E era um deserto implacável, ao meio-dia. Serafim agonizava e debatia-se, como um peixe fora d'água. O sangue minava-lhe da boca, como se houvesse pulado de um edifício. Mas o sol era divino. A face de Serafim brilhou. E, todo ensanguentado, levantou-se e aceitou sua estaca.

22 de julho de 2013

A GRANDE GUERRA

Começa o dia. Lá fora, adversidades gigantes e pensamentos moinhos. Faltam quinze para as sete e heroísmo sobra. Transito num quase transe. Meio acordado. Meio dormindo. Respeito a faixa entre o trem a plataforma. Não tenho destino. Já antes do meio-dia, enfrento os gigantes e os tiranos mais temíveis. À tarde, derribo obstáculos, movo montanhas. Surro meus inimigos. Quando chego em casa, a consagração: dispo-me da minha armadura pesando toneladas, calço o meu chinelo e sempre venço.

23 DE JULHO DE 2013

O CARPINTEIRO

Na pequena oficina do meu pai, aprendi as grandes lições da vida. Papai levantava cedo. Mamãe passava o café. Lili sempre bocejava e quase engasgava com o pão. Lá em casa, o pão sempre foi consagrado. Café estava caro? Tinha. Café estava barato? Também. Inflação? Não faltava. E todo mundo tinha que ir pra escola. Sem choro. Mas eu gostava mesmo era de carpintar. E, vez por outra, em vez de tomar o rumo da escola, tomava o rumo da oficina."Toma rumo, menino," indignava-se o velho. Mas logo ia me dando serviço. E assim, trabalhamos juntos, até que tudo ficou pronto.

Primeiro de agosto de 2013